segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ressaca

Sinto um cansaço estranho. Não é nada como o cansaço dos últimos semestres quando eu me via livre da UECE por algum tempo... é como se todo aquele turbilhão tivesse passado e o que ficou pra trás respirasse calmo, quase acordando. O arquétipo da mulher selvagem levantando as orelhas, curioso, me explorando dentro de mim mesma. Eu não me tornei a mulher que eu achei que me tornaria. Surpreendentemente, pra mim, fiquei melhor do que tinha imaginado ser capaz de ficar. E bem mais cedo. Tem um incomodozinho no meu coração quando eu penso nisso, quase posso visualizar uma menininha de uns três anos e uns cachinhos castanhos escorrendo pelo rosto batendo o pezinho e cruzando os bracinhos emburrada. Foi inevitável. Eu aconteci. É muito estranho eu ter conseguido me fazer sem mim. Fiz. Não noto a problemática exatamente aí, nem poderia, porque certas situações são inconcebíveis... uma delas é eu resolver supor como tudo poderia ter sido mas não foi. Além, obviamente, de ser uma reflexão completamente inútil. Pra quê? Já estou aqui. Viva e plena. Hoje eu passei o dia pensando em ser mais eu e menos o externo. Eu sempre escolhi abrir mão de mim. Como eu tendo ao extremismo, vou ter que ficar atenta pra não me enfiar dentro de mim mesma, mas pretendo aprender a me dar um certo espaço nas minhas próprias considerações. Eu tenho que tentar fazer com que pelo menos a maior parte do que eu preciso pra me manter bem esteja em mim, ou comece em mim, ou parta de mim, ou que pelo menos chegue em mim, senão eu morro de fome! Individualista é a última palavra que possa ser aplicada a mim. Gosto disso. Mas vou reformular minha tendência altruísta pra que ela se torne passível de respeito próprio e respeito ao outro, não exclusivamente abdicar de mim mesma e me dedicar às causas que estão de mim pra fora... inclusive eu penso que em algum momento eu faço parte delas - é aqui a situação problema: eu não sinto que faço parte, me concebo fora do limite dos grupos que me rodeiam, como se eu não me encaixasse. Literalmente. Uma pecinha perdida, portanto, desfuncional. Eu sei caber, mas pra isso eu preciso me desdobrar. Sempre me pareceu tudo tão pesado, tão denso... acho que realmente eu compliquei demais as coisas, ou refleti demais sobre elas e acabei por achar que a solução era solucionar e partir daí tudo que me rodeava precisou se tornar um problema. Possivelmente nos próximos tempos vou estar breve. Ou não estar de forma geral. Ando sem saco pra interação. É muita falta de jeito, muito jeito sem cabimento, muito vazio e pouco motivo pra insistir. Eu sou sim de uma natureza calma, mas hoje eu detectei um algo de intolerância em mim. Pra não ter que responder eu ando preferindo nem perguntar. Se eu não puder descobrir sozinha eu encontro outra saída, ou não, mas eu tenho notado o quanto as pessoas se sentem no direito de se enfiarem umas nas vidas das outras... sempre foi assim e eu é que tô mais sensível a isso ou as relações sociais estão mesmo tendendo a se estreitarem até entrarem umas por dentro das outras? Minha incomensurável compreensão exige demais de mim. Acho que meu juízo resolveu dar um tempo nas batalhas. Vou chamar meu novo cansaço de ressaca. Feito a ressaca da maré cheia, que espera o dia amanhecer pra redesenhar o formato da praia... Não me sinto batendo em retirada, é só que eu não quero mais me alterar por pouco. O problema é olhar ao meu redor e achar que tá tudo muito pouco. Tô planejando ir ao cinema sozinha amanhã, e essa ideia está me fazendo muito bem. É incomum pra mim. Eu nunca gostei de cinema sozinha... na verdade qualquer coisa que eu tivesse que fazer sozinha, principalmente se eu estivesse rodeada de pessoas (especialmente as que estão acompanhadas), até pouco tempo atrás me incomodava. Parece que me perceber abandonada comigo mesma me desesperava. Mercúrio resolveu não sair nunca mais das minhas casas astrais... essa introspecção tem possivelmente alguma conexão com a influência de Virgem que eu permiti que chegasse até mim. Sabe que tem até me feito bem? Eu precisava dessa calmaria. Tô sentindo que vou interagir menos por algumas semanas... Pelo menos eu me libertei do estigma de ter que fazer parte da futura geração Prozac porque aprendi a ser eu mesma o calmante de mim. O acalento que me falta vai continuar faltando. Paciência. Nesses momentos é ótimo ser pessimista - eu nunca esperei cem por cento, continuo não esperando, termino por conviver bem com as faltas. (Não com as perdas, sim com as faltas.). Eu queria diminuir meu criticismo. Sinto falta do lirismo que embalou minha infância e minha adolescência... eu já fui tão romântica! Minha massa crítica parece que tomou conta de mim. Desaprendi a vivenciar qualquer coisa sem percebê-la. É ruim. Talvez se eu tivesse sabido que de tanto engolir livros eu um dia teria dificuldade em lê-los porque estou me tornando hipersensível e por isso desenvolvendo tendências a evitar o convívio social porque não tenho a frieza de me justificar ou o cinismo de dar satisfação eu tivesse escolhido me conformar em ser normal e seguir o modelo dos que se conformam. Mas não. Vou seguindo devagar e sempre. Eu li em algum lugar uma metáfora fantástica comparando os Touros (nesse caso, os taurinos) com as locomotivas. São grandes e pesados, seguem sua marcha sem se desvincular dos trilhos, e por mais que não consigam grande velocidade pelo seu peso, é preciso muita força pra frear uma locomotiva. Ficou faltando ressaltar o quanto elas demoram pra frear, mesmo quando é isso o que deve ser feito. Retornei a mim mesma, depois de tanto me perguntar o que eu tinha feito comigo. Vou voltar pro seio dos meus livros, minha maior e mais segura fonte inesgotável de carinho... alguém por favor me lembre de nunca mais, em hipótese alguma, me afastar da Literatura. O meu maior conforto é o primeiro que me acolheu. Não me desespero por desconfiar que pra sempre eu sou vou conseguir caber inteira e me sentir abraçada e protegida na segurança dos meus livros. Meus universos paralelos, realidades mais possíveis, mais passíveis, mais passivas... Acho que hoje eu vou chorar antes de dormir.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Terra do sempre

Hoje eu me peguei pensando o quanto seria interessante enfiar uma granada no estômago da imbecil que primeiro pensou sobre feminismo antes que ela fosse capaz de abrir a boca pra propagar essa imbecilidade maior do que ela. Pra quê isso? Pensemos na Belle Époque, que coisa linda: já se podia ler! Ler! Meu único problema com a sociedade patriarcal seria não poder ler, mas, uma vez que eu posso, e tenho todo o tempo do mundo pra ler, escrever escondida com uma pena longa em caderninhos de capa de pano, estudar Literatura, História, Mitologia, aprender francês, ir aos bailes de dança, aos musicais nos teatros clássicos, desfilar aqueles vestidos maravilhosos, usar luvas de seda e chapéus de renda... que paraíso! Não tenho obrigação nenhuma de ter obrigações. Meu único fardo é dar ao meu marido o prazer de me servir. E, muito taurina que sou, adoraria essa vidinha que eu faria parecer superficial enquanto planejava alguma revolução para os tempos que ainda viriam... o diabo é que eu penso que a imbecil que primeiro pensou o feminismo fui eu mesma. Sempre clamando liberdade. Sempre falando de amor. E, pra pagar pelo que fiz, nessa encarnação vim com o fardo de ser livre. Fritz (Nietzsche, velho companheiro de madrugadas) achava que tinha vindo ao mundo cedo demais. Eu digo que não. Toda geração precisa dos seus futuristas. Eu dessa vez fui parida por uma aquariana, em pleno quinze de maio. Acho que minha sina de pensar à frente do tempo continua, mas que deve ter sido muito melhor ler e costurar a elaborar projetos sociais pra adolescentes em conflito com a lei e analisar o inconsciente de gente histérica deve. É interessante admitir que se alguém tivesse me dito há uns três ou quatro anos atrás que hoje eu estaria pensando isso, entre espirros e antialérgicos num domingo quente, eu provavelmente enlouqueceria. Ia negar com todas as minhas forças, desembanhar um indicador feroz na cara de quem viesse me dizer que um dia eu entenderia que amadurecimento não necessariamente é conservadorismo e pensamento livre não é sinônimo de justificativa barata pra lutar contra qualquer coisa só pra ostentar o título de “eu-penso-diferente-da-massa-alienada/manipulada”ou, mais adolescente ainda: “estou-incomodando-meus-pais”... eu acho que sempre tive umas tendências clássicas. A arte clássica é que eu acho mais linda de todas. Claro que eu adoro simbolismo, impressionismo e surrealismo. Acho lindo, colorido e disforme. Bem vivo, bem vida. Mas quando eu idealizo, por exemplo, o meu lugar, seja ele qual for, vejo paredes em tons de marfim e pérola, acabamentos em gesso com arabescos, uma mobília entre marrom, café e bege, algumas esculturas rústicas, um quadro em tons nem muito frios nem muito quentes, uma iluminação branca com detalhes em acrílico transparente (também imagino umas luminárias de parede metidas a castiçais, trabalhadas, talvez com flores), uma cozinha mais tecnológica pela praticidade, um banheiro em branco com madeira escura com um espelho de camarim sobre uma bancada em mármore bege, espaçoso e cheio de gavetas, um closet, um quarto com a maior cama que eu conseguir, dois pugs e uns gatos (não sou capaz de restringir o número de gatos, acho que nesse aspecto eu nunca vou mudar), um óbvio quarto de livros, mapas e um globo e eu mesma, de óculos, de sapato fechado, possivelmente uma meia calça, com o cabelo feito um coque anos 50, detalhes em pérola e madrepérola e qualquer roupa do tipo de um vestido marinheiro azul marinho ou de um blaser de saia acima do joelho rosa claro que caracterize o quanto assistente social, psicanalista, taurina, com sintomas de antipatia e tendência à seriedade eu sou. Tudo sóbrio. Quase cético. Sem delírios, alucinações, Armagedon, fúria, terremotos e vulcões. Vênus. Terra. Minha mais nova descoberta é que a minha sensibilidade pra filmes diminuiu e muito. Não sei se porque ultimamente eu descobri que o que realmente me emociona é teatro, mas meu pranto fácil pra cenas gravadas sumiu. Vez ou outra eu percebo uma cena excelente, mas o filme acaba em alguns minutos, eu desligo a televisão e vou dormir. É com um pé atrás que eu anuncio que ando desconfiando que meus níveis de ansiedade caíram. Espero que eu tenha aprendido a mantê-los sobre controle (imagina se volta?) ou pelo menos a conviver com eles. Acho que era esse meu problema. Eu sou mesmo do tipo que, entre a faca e o queijo, prefere a fome! Mas eu andei muito condensada até pra mim mesma, entende? O mundo é de verdade, as curvas que a minha vida faz não precisam me machucar tanto assim. Eu nasci pra fazer feliz(es), e penso que começar por mim mesma é uma ótima forma de redenção e hedonismo. Não consigo ser extremista e adulta ao mesmo tempo. Não dá pra mim. O que se passava comigo era que eu não me assumia pra mim mesma. Ou assumia, mas incomodava (me incomodava) – daí talvez minha ausência de auto-estima - porque emanava energia demais de forma errada... eu continuo gostando de vermelho: só aprendi como aplicá-lo. E, principalmente: aprendi a jogar com seus tons. Com meus tons. Com os tons do mundo. Eu envelheci. Definitivamente.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Repassos

O prefixo "re" tem origem latina e entre as suas significações está "de novo". Quem refaz, faz de novo; quem recomeça, começa de novo; quem repensa, pensa de novo; aquilo que fica ressentindo fica latejando no coração: nem sente com toda a força que pode nem deixa de sentir por inteiro. Fica ali, mágoa. Incomoda depois acostuma. Ou acostuma depois incomoda... Sendo assim, quem repassa passa de novo e os repassos devem ser essenciais pra constituição de quem deseja se expandir. Reconstruir. Acho que vai ser esse meu novo lema. Sou eu mesma um eterno experimento de mim. Faço questão de estar inacabada, do meu lugarzinho de aprendiz, do brilho dos meus olhos, do coração batendo forte, da sensação de poder, que milagre!, nascer de novo. Renascer. Refazer. Repensar. Reconstruir. Ressentir... vivi quase vinte anos (até agora são dezenove) de ápice, êxtase, máximo, mega, loucura, pressão, ansiedade, tonturas, dúvidas, questões, e se?, e se!, e se... tenho me transformado, eu metamorfose, eu de novo, eu o outro, a outra, eu vida, eu sereia. Não reconheço mais tanta dor em mim. Acho que minha maré amansou. Obviamente que os ventos me modificam, não quero ser estável, quero ser viva! Sou feita de liberdade e amor. Meu coração é quem vai me guiando... as palavras certas me vão escorrer pela boca quando deverem, se deverem. Aprendi o valor de um silêncio. Tantas vezes é melhor calar... tantas outras vezes é melhor abrir mão, tantos nãos são necessários pra que se forme um sim! Ninguém precisa sofrer pra ser feliz. Eu decidi que não sofro mais. Aí vão dois nãos que abrem os braços pra mim... eu nunca fui otimista, inclusive as causas que eu mais amo tendem a ser as visivelmente perdidas. Tenho obcessões. Desenvolvo manias. Às vezes minha resistência me irrita. Já tive vontade de padecer, enlouquecer docemente, me entregar à minha angústia... mas não sou assim. Minha função é continuar. Eu não sei conceber fins. Talvez eu enxergue o começo, mas, enquanto eu detectar vida, compreendo novas possibilidades, enxergo novos rumos, sei renascer. Ressentir. Tenho ultimamente me perguntado se afinal não somos todos nós frutos das nossas escolhas erradas... que maravilha o artifício do erro! Sinto repugnância pela perfeição. Quero ser. Quero continuar sendo. Quero continuar. Minha nova meta é aprender a reconhecer meus desejos. E aos poucos vou nadando pelos meus oceanos...