Hoje eu me peguei pensando o quanto seria interessante enfiar uma granada no estômago da imbecil que primeiro pensou sobre feminismo antes que ela fosse capaz de abrir a boca pra propagar essa imbecilidade maior do que ela. Pra quê isso? Pensemos na Belle Époque, que coisa linda: já se podia ler! Ler! Meu único problema com a sociedade patriarcal seria não poder ler, mas, uma vez que eu posso, e tenho todo o tempo do mundo pra ler, escrever escondida com uma pena longa em caderninhos de capa de pano, estudar Literatura, História, Mitologia, aprender francês, ir aos bailes de dança, aos musicais nos teatros clássicos, desfilar aqueles vestidos maravilhosos, usar luvas de seda e chapéus de renda... que paraíso! Não tenho obrigação nenhuma de ter obrigações. Meu único fardo é dar ao meu marido o prazer de me servir. E, muito taurina que sou, adoraria essa vidinha que eu faria parecer superficial enquanto planejava alguma revolução para os tempos que ainda viriam... o diabo é que eu penso que a imbecil que primeiro pensou o feminismo fui eu mesma. Sempre clamando liberdade. Sempre falando de amor. E, pra pagar pelo que fiz, nessa encarnação vim com o fardo de ser livre. Fritz (Nietzsche, velho companheiro de madrugadas) achava que tinha vindo ao mundo cedo demais. Eu digo que não. Toda geração precisa dos seus futuristas. Eu dessa vez fui parida por uma aquariana, em pleno quinze de maio. Acho que minha sina de pensar à frente do tempo continua, mas que deve ter sido muito melhor ler e costurar a elaborar projetos sociais pra adolescentes em conflito com a lei e analisar o inconsciente de gente histérica deve. É interessante admitir que se alguém tivesse me dito há uns três ou quatro anos atrás que hoje eu estaria pensando isso, entre espirros e antialérgicos num domingo quente, eu provavelmente enlouqueceria. Ia negar com todas as minhas forças, desembanhar um indicador feroz na cara de quem viesse me dizer que um dia eu entenderia que amadurecimento não necessariamente é conservadorismo e pensamento livre não é sinônimo de justificativa barata pra lutar contra qualquer coisa só pra ostentar o título de “eu-penso-diferente-da-massa-alienada/manipulada”ou, mais adolescente ainda: “estou-incomodando-meus-pais”... eu acho que sempre tive umas tendências clássicas. A arte clássica é que eu acho mais linda de todas. Claro que eu adoro simbolismo, impressionismo e surrealismo. Acho lindo, colorido e disforme. Bem vivo, bem vida. Mas quando eu idealizo, por exemplo, o meu lugar, seja ele qual for, vejo paredes em tons de marfim e pérola, acabamentos em gesso com arabescos, uma mobília entre marrom, café e bege, algumas esculturas rústicas, um quadro em tons nem muito frios nem muito quentes, uma iluminação branca com detalhes em acrílico transparente (também imagino umas luminárias de parede metidas a castiçais, trabalhadas, talvez com flores), uma cozinha mais tecnológica pela praticidade, um banheiro em branco com madeira escura com um espelho de camarim sobre uma bancada em mármore bege, espaçoso e cheio de gavetas, um closet, um quarto com a maior cama que eu conseguir, dois pugs e uns gatos (não sou capaz de restringir o número de gatos, acho que nesse aspecto eu nunca vou mudar), um óbvio quarto de livros, mapas e um globo e eu mesma, de óculos, de sapato fechado, possivelmente uma meia calça, com o cabelo feito um coque anos 50, detalhes em pérola e madrepérola e qualquer roupa do tipo de um vestido marinheiro azul marinho ou de um blaser de saia acima do joelho rosa claro que caracterize o quanto assistente social, psicanalista, taurina, com sintomas de antipatia e tendência à seriedade eu sou. Tudo sóbrio. Quase cético. Sem delírios, alucinações, Armagedon, fúria, terremotos e vulcões. Vênus. Terra. Minha mais nova descoberta é que a minha sensibilidade pra filmes diminuiu e muito. Não sei se porque ultimamente eu descobri que o que realmente me emociona é teatro, mas meu pranto fácil pra cenas gravadas sumiu. Vez ou outra eu percebo uma cena excelente, mas o filme acaba em alguns minutos, eu desligo a televisão e vou dormir. É com um pé atrás que eu anuncio que ando desconfiando que meus níveis de ansiedade caíram. Espero que eu tenha aprendido a mantê-los sobre controle (imagina se volta?) ou pelo menos a conviver com eles. Acho que era esse meu problema. Eu sou mesmo do tipo que, entre a faca e o queijo, prefere a fome! Mas eu andei muito condensada até pra mim mesma, entende? O mundo é de verdade, as curvas que a minha vida faz não precisam me machucar tanto assim. Eu nasci pra fazer feliz(es), e penso que começar por mim mesma é uma ótima forma de redenção e hedonismo. Não consigo ser extremista e adulta ao mesmo tempo. Não dá pra mim. O que se passava comigo era que eu não me assumia pra mim mesma. Ou assumia, mas incomodava (me incomodava) – daí talvez minha ausência de auto-estima - porque emanava energia demais de forma errada... eu continuo gostando de vermelho: só aprendi como aplicá-lo. E, principalmente: aprendi a jogar com seus tons. Com meus tons. Com os tons do mundo. Eu envelheci. Definitivamente.
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