Quem sabe um dia você vá entender. Quem sabe nesse dia já seja tarde demais. Já despertei do meu sono sozinha - sem príncipe, sem cavalo, sem resgate, sem beijos de amor. Essa função, portanto, não cabe mais a você - nem a ninguém, o que te faz, então, igual a todos os outros. Uma possibilidade latente, ou não. Especificamente, uma possibilidade tímida, calada, displicente, distraída... ora, se há de latir ou não, quase que tanto faz. Eu, pessoalmente, não sei ladrar. Não lato e não me anuncio porque não faço questão. Posso não saber de cor o que vou encontrar pelo caminho mas tenho certeza que por saber andar vou ser capaz de percorrê-lo. As quedas hão de vir. Que venham, então. Sei dos meus objetivos. Sei de mim. Não sou sorrateira, sutil ou discreta. Nunca soube disfarçar. Sou uma péssima dissimuladora porque me perco no meio da mentira e nunca consigo sustentar um pilar do qual discordo. Preciso querer pra fazer. Já te quis demais, te amei demais, te desejei demais, sonhei demais, idealizei demais, esperei demais... mas quem espera, meu bem, nunca alcança. Antes de voar tem que aprender a enxergar, passarinho, essa tua ânsia por um vôo cego só te enfia de volta pro ovo... mas não te acuso de nada. Não posso. Falar dos teus defeitos pro mundo me constrange. Tua imbecilidade parece demais com a minha. Arrogante... não vou te abandonar no sentido exato da palavra, uma vez que, para isso, eu precisaria me desviar do plano inicial - e não pretendo. Não vou, mais uma vez, abrir mão do que eu quis pra mim mesma porque alguém frustrou uma expectativa que pulsava em alguma etapa. Não preciso disso. Nem quero. Portanto, vou continuar por aqui, eu mesma, e se você achar por bem me procurar que venha - não te prometo nada. Nem vou fechar nem abrir porta nenhuma. Não vou viver nem morrer por você. Você é um no mundo. Eu sou outra. E só.
Pregavam as lendas antigas que sereias poderiam causar ou acalmar tempestades quando bem entendessem e que, como as Esfinges, poderiam lançar enigmas aos homens. Sabe-se pouco sobre as sereias...
quarta-feira, 27 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
(TPM)
sexta-feira, 18 de março de 2011
Súplica
quarta-feira, 16 de março de 2011
Com a força de tudo que eu não sei
sexta-feira, 11 de março de 2011
Acalentos
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.(Adélia Prado)Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...(Florbela Espanca)E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?
(Carlos Drummond de Andrade)