domingo, 8 de maio de 2011

Não!

Bom dia, confusão!
Quase esqueci de você. Andei meio à meio, mas é maio e eu de mim espero mais.
Mais amor...
Meus fantasmas me inspecionam. Me delimitam. Quase árduos - nunca aprendi a pedir desculpas. Por isso não posso errar. Não tenho cara de perdão. Não por arrogância nem por desprezo, não saberia descrever o que de fato me impede de admitir quando me arrependi. Não sei bem se é orgulho. Acho que é amor. Só me arrependo quando recuo. Se eu deixei de avançar, foi por carinho. Minha paixão não tem estratégias. É enlouquecida, avermelhada, incandescente, fumaça...
Tenho tido dificuldades em me expressar. Nós duas sabemos o que isso significa. Me diz: o que eu faço com meu medo?
Não sei lidar com ele... me arrepio e arregalo os olhos, aquela vontade de matar ou morrer invade minha adrenalina e eu me transformo no meu próprio precipício. Ai!, como eu queria não ter sede de sentir! Vida, liberdade e amor! Meus componentes são mesmo tão relativos, tão sem forma, tão... tanto... quanto... eu...
Quero chorar essa ânsia.
Não conseguiria.
Não tenho dúvidas.
Não me resta mais nada pra chorar ou querer.
Essa é a fonte do meu quase escudo: segredo: não sou inabalável. Só estou sob o controle do que necessito. Mas, se respiro fundo, sinto mil facas geladas perfurando meus pulmões.
Seja forte.
Reaja.
Tome o impulso, mesmo sentindo dor.
É o kharma de todas as sereias.
Quando se formarem as pernas sentirá como se uma espada a partisse ao meio, e, a cada passo que der, sentirá como se caminhasse sobre facas afiadas, e o sangue deve escorrer...
Quando se pára de caminhar, desequilibra e cai no mundo de terra.
A água era mais seguro - mas não tinha ar...
Faça escolhas.
E siga.
Feita pra durar. Programada pra seguir em frente.

Sinto arrepios! Esses tapas realistas me desestruturam de fato... sou humana agora. Minha vida pinta um quadro com as cores de Van Gogh e estampa na minha retina: ENXERGA! Nunca vai ser. Não!

(...) "and if you do not win the love of the prince, so that he is willing to forget his father and mother for your sake, and to love you with his whole soul, and allow the priest to join your hands that you may be man and wife, then you will never have an immortal soul. The first morning after he marries another your heart will break, and you will become foam on the crest of the waves." (...)

Bem(,) te quis

te esperei a vida inteira, meu bem.
tudo bem?
à quantas vai o seu inferno?
o meu vai bem.

te esperei a semana toda.
algumas vezes me perguntei por quanto tempo mais seria capaz
de te querer
suspirar
esperar pela espera
paciência...

te quis o dia todo.
abri os olhos e o vento pintava o céu de outro azul.
algo mais claro - da madrugada ao anis
te quis...
à tarde as nuvens se convertiam em ouro e manga
anoiteceu e o universo se vestiu de âmbar

te esperei uma hora toda,
ansiosa,
olhos lépidos varrendo o cômodo como se você fosse inromper porta àdentro,
invadir o quarto
e entrar em mim.

te quis por um minuto, por cada segundo
por todos os motivos: te quis!
esperei porque quis.

quis por um intervalo de tempo que não cabe no mundo, porque não sou feita do que se pode contar.
depois sobrevivi.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Finalmente, enfim.

Quem sabe um dia você vá entender. Quem sabe nesse dia já seja tarde demais. Já despertei do meu sono sozinha - sem príncipe, sem cavalo, sem resgate, sem beijos de amor. Essa função, portanto, não cabe mais a você - nem a ninguém, o que te faz, então, igual a todos os outros. Uma possibilidade latente, ou não. Especificamente, uma possibilidade tímida, calada, displicente, distraída... ora, se há de latir ou não, quase que tanto faz. Eu, pessoalmente, não sei ladrar. Não lato e não me anuncio porque não faço questão. Posso não saber de cor o que vou encontrar pelo caminho mas tenho certeza que por saber andar vou ser capaz de percorrê-lo. As quedas hão de vir. Que venham, então. Sei dos meus objetivos. Sei de mim. Não sou sorrateira, sutil ou discreta. Nunca soube disfarçar. Sou uma péssima dissimuladora porque me perco no meio da mentira e nunca consigo sustentar um pilar do qual discordo. Preciso querer pra fazer. Já te quis demais, te amei demais, te desejei demais, sonhei demais, idealizei demais, esperei demais... mas quem espera, meu bem, nunca alcança. Antes de voar tem que aprender a enxergar, passarinho, essa tua ânsia por um vôo cego só te enfia de volta pro ovo... mas não te acuso de nada. Não posso. Falar dos teus defeitos pro mundo me constrange. Tua imbecilidade parece demais com a minha. Arrogante... não vou te abandonar no sentido exato da palavra, uma vez que, para isso, eu precisaria me desviar do plano inicial - e não pretendo. Não vou, mais uma vez, abrir mão do que eu quis pra mim mesma porque alguém frustrou uma expectativa que pulsava em alguma etapa. Não preciso disso. Nem quero. Portanto, vou continuar por aqui, eu mesma, e se você achar por bem me procurar que venha - não te prometo nada. Nem vou fechar nem abrir porta nenhuma. Não vou viver nem morrer por você. Você é um no mundo. Eu sou outra. E só.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

(TPM)

te odeio!
queria voltar no tempo pro tempo que eu ainda não te conhecia
engraçado que estava tudo meio diferente naquele dia, meio distante de mim
era um dia incomum, eu devo ter comentado: "que atmosfera pesada"...
era você chegando, o ar ficando rarefeito, o oxigênio se solidificando e minha respiração começando a falhar
eu não queria me controlar e não me controlei: pra não abrir minhas portas eu as destruí, e, completamente acessível, descansei na tua praia
tanta calma, virginiano, me ensina tua lâmina?
eu queria me machucar e o fiz... bem escolhido e mal vivido, eu quis você!
foi um dia de nãos, estava nublado e até choveu
você foi meu único sim
luz
você resplandesceu naquela noite escura
me olhou de cima pra baixo e eu quase desmaiei
te odeio!
cada não que eu te digo é um pedaço de mim que eu arranco
não entendo, não sei porquê...
sai da minha vida!
desaparece...
houve um tempo em que eu não te odiava porque nem te conhecia
é impossível pra mim, agora, ser indiferente
(imagino teu ar de riso de quem mal consegue acreditar no que eu digo, no que eu sinto... acho que se eu te dissesse tudo isso ia ter que ouvir o discurso de consolação de quem delicada e firmemente explicita que eu nunca vali nada na sua vida, nem valeria, porque minha função não é essa e não se dá pérolas aos porcos)
nunca vou te desprezar
sempre que eu calar estou mentindo
minha concessão seria aos gritos!
quando eu evitar estou fugindo
quando eu virar o rosto vou sentir mil facas arranharem meu peito por dentro
cada soluço do meu choro sou eu tentando disfarçar o som do seu nome que ecoa no meu pensamento
te odeio!
durmo e acordo pensando em você
te amo, te amo, te amo...

(suspiro)

não sou ridícula por ter me apaixonado por você. isso não me faz melhor nem pior que ninguém no mundo. antes o fizesse. o que me mata é a certeza de que eu sou só mais uma. eu te conheço... sei a cor do teu desdém, do teu descaso, teu desprezo, teu cinismo... conheço tua dureza, tuas máscaras, tuas defesas... se eu não te conhecesse não te amaria, se não te amasse não te aceitaria, se não te aceitasse não quereria te ter comigo, se não quisesse te ter comigo não sentiria tanta saudade do tempo que eu não te conhecia! de nós dois eu que faço sentido, você só faz sentir... te odeio! não te perdôo! vai embora de mim!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Súplica

me dá teu colo
me dá teu peito
me dá teu coração
teu conforto, teu acalento
teu abraço, tua boca...

eu não quero fazer sentido!
quero fazer sentir...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Com a força de tudo que eu não sei

eu jurei que te amava antes de partir
mas já sabia que amava antes mesmo de jurar
então planejei que partiria sem amor porque levá-lo comigo, entenda
pesaria na viagem
amei porque partiria depois da jura
jurei que te partiria antes de amar
lancei minha flecha ao alvo errado - era um espelho, esqueci de mim
parti, segui andando
não sei se sinto dores
sei de súbito o que em um dia senti de susto
choque
depois de toda queda tem um choque
colisão, a queda própria se concretiza no corpo caído
não na possibilidade que cai, ou que cairia (tudo que pende cairá um dia)
o corpo caído se quebra se quiser quebrar
só se parte aquilo que sentir partir
senti, parti
parti porque jurei que te amaria
e não pude com o peso que proclamei
procurei
perdi
encontrei: na fissura da flecha no espelho, superfície
há a alma
abrir mão não é pecado
não se voa de asas fechadas
de fato, não me tornei a poetisa que queria
surgi aprendiz
maestrina de mim mesma
não canto com a voz
não sou feita do que se pode contar...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Acalentos

Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

(Adélia Prado)


Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...

(Florbela Espanca)


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José ?

e agora, você ?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José ?

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José ?

E agora, José ?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora ?

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José !

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José !

José, pra onde ?

(Carlos Drummond de Andrade)