quarta-feira, 2 de março de 2011

Nove

me disseram que já houve cântico mais profundo vindo de mim.
deve ter havido. já fui outras. sou várias.
o formato dos olhos é o mesmo: a cor mudou.
costumavam ser mais esverdeados, ultimamente andam assim cor de amargo

mas é que quando eu tinha meus nove anos eu era poeta.
já se foi uma década no meu carteado
minhas mãos pingaram tanta letra
tanto amor
tanta estória
tanto canto
tanto conto
que já não são mais as mesmas
e nem sou eu
tampouco sei se ainda sou poeta...

provavelmente minha poesia mudou de cor, mudou o tom, mudou a forma.
eu mesma mudei inteira,
vou continuar modificando
metamorfose
metade eu, metade o outro
eles serão, eu sereia!

não quero definições, dispenso finalmentes
me canso rápido de para sempres,
meu eternamente é nunca mais
sempre pra mim é pouco
não há estável que seja tão fascinante quando as ondas que quebram na praia e se formam de novo...

novo de novo,
nove de novo
gosto do meu solo firme, mas sei que o mundo é maior que eu
quero ser grande pra caber nele

não perdi minha poesia porque ainda posso senti-la lilás, lírio e lavanda
pulsando alguma essência que se eu quisesse decodificar poderia
mas não quero.
dispenso definições.
quebro muros, contorno valas, gosto do calor do sol mas acho linda a música da chuva
quando quebro na praia me formo de novo:
metade eu, metade o outro...

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