sábado, 5 de março de 2011

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Esqueci que nunca gostei de grama, deitei, adormeci, acordei confusa. Trocar os pés não fazia parte dos meus planos, meus passos é que são enviesados mesmo, nasci com pezinhos tortos pra dentro. Vou caminhando e tropeçando, algumas vezes bem devagar, outras nem sempre. Nunca soube correr. Você essa loucura. Eu sóbria. Recebi alguns bons conselhos seus, você que é mais casca que polpa. Essa precisão de trocar de exoesqueleto é o quê, medo de si? Penso que minha crueldade descobriria facilmente uma forma de te atingir em cheio. Você é feito de camadas finas, fácil de ser destruído. Como as baratas. Qualquer pranto te desmancharia, brinquedo de papel machê - daí a sua necessidade de ser escorregadio. Eu não. Onde você tem medo eu tenho coragem. As lentes dos meus óculos ofuscando o que você nem esperava encontrar, e agora? Um baú envelhecido, escurecido pelo tempo debaixo d'água. A única instância capaz de arrebentar meu cadeado era a sua braveza, felino! Ferino, astuto, arrogante! O que há na caixa de Pandora? Essa dificuldade de respirar deve ser mais que fadiga... tomei chuva enquanto estava desmaiada. Sozinha. Sozinha? Era você ali, sorrateiro feito as cobras que deslizavam seus balés por entre as folhas mortas no chão dos Outonos, leve como o vento que farfalhava os gravetos secos e me arrepiava a nuca... eu não podia ter te amado menos. Eu jamais teria querido te querer menos do que o que planejei. Você não vinga porque é quase molhado, não é possível tocar sua superfície. Você troca de pele antes que alguém consiga encostar. Hipnotizante, radiante, radioativo! Eu era presa fácil (mas quem te envenou fui eu). Quem tinha o corpo aberto era você, não eu. Renovar-se sobre o nada não é evolução. Você não sabe voar nem tem alicércie. Onde você pensa em pousar, no que tem fim? E depois? Minha energia te ceifou segundos de consciência. Nosso cerimonial entorpecente teria passado despercebido pela minha racionalidade. Atravessamos os portais da temporada de aquário, um embreagado no outro, e então a estação passou. Boa noite! Ainda chove sobre o mar. Outros tempos hão de vir e ir... Mas o ano já beirava maio e eu não podia te amar menos porque o mundo estava grávido da temporada das flores. Algumas vezes mais o sol se deitaria sobre o mar e em qualquer alvorecer cantariam as pétalas de cor em cheiro, maqueando Gaia. Sempre preferimos o Outono. Aquela melancolia alaranjada... folhas secas, galhos, Vincent Van Gogh, açúcar mascavo e canela, um relógio de pêndulo e botões de cravo. É mais elegante o Outono do que a Primavera, eternamente adolescente... houve um suspiro e estava derramado todo o mel. Você é todo sussurro. Abril é azul, meu bem. Só não mais azul que o céu de setembro. As águas de Peixes são tão geladas que cortam as veias... as lâminas dos virginianos são formadas pelo brilho dos olhos deles, material mais rígido do mundo. Inacessíveis. Eu até queria ter me surpreendido menos, mas minha vaidade sorria pra mim: Afrodite! Meu lombo já sofreu bem mais, por isso sou mais vermelha (manchada de sangue). Mas você, você não, você recusa tudo que aceita, sai dos trilhos por qualquer fantasia, reage a qualquer estímulo, pensa que acredita enquanto reluta, você é verde. Por isso nos confundimos: daltonismo astral. Éramos vertentes semelhantes, nos entrecruzamos - mas você insiste em explorar o mundo pelos ares e eu tenho mania de edificação. Só pode ser intenso se for real e realidade pressupõe terrenismo! (Essa parte não é taurinice, é quase lógica...) Compreendo sua imaturidade. Parece com a minha. Eu também já achei que me entregar ao delírio me libertaria. Precisei cavar minha própria lama pra entender que estava nadando contra a correnteza, que meus braços não queriam aquele caminho, que quanto mais forte eu me tornava mais sufocava porque tudo que eu escolhi pra me engrandecer escorria quente pelo meu rosto e deixava de existir. Vibrar por alguns segundos não constrói nada. É em vão. Enlouquecer docemente é aprisionamento e não êxtase. O êxtase está em ver todo dia o sol nascer... na verdadeira singeleza do tempo se propagando pelo espaço, da materialidade que se vive tão intensamente que nem sente. Enaltecer o detalhe é obcessão, mania. Pra quê escolher o micro se nós dois nascemos na mesma galáxia em que nasceram os aneis de Saturno? Perfeccionismo é capricornianice, vá-de retro! Tantos holofotes gastam uma energia desnecessária. Você não é alto. Nem grande, ou profundo. Você é uma planície. Vasto. Essa simplicidade nunca me enganou... tropecei por estar com um pé atrás. Seus truques não funcionam comigo. Suas cartas na manga eu já sei decoradas. Quem sabe fingir bem dispensa as estórias de pescador... já é março de novo! O fogo de Hades lambendo a elipse do universo. Bocejo. Tenho preguiça de superficialidade. Você que é mato, tem raiz fina, tem mais é que esparramar suas raminhas sobre outros botões. Eu não entendi você. Não te aprendi. Me deu preguiça. Involuntariamente eu desisti. Sua pirofagia deve ser alguma forma de sobrevivência, já que auto-proteção não combina com o seu gosto pelo risco. Você é um mastro sem leme. Te deixo agora. O frio da madrugada não me faz medo - faz companhia. Eu não sou flor nem fruto: sou o tronco, parto da raiz e termino onde toca o céu.

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