sexta-feira, 18 de março de 2011

Súplica

me dá teu colo
me dá teu peito
me dá teu coração
teu conforto, teu acalento
teu abraço, tua boca...

eu não quero fazer sentido!
quero fazer sentir...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Com a força de tudo que eu não sei

eu jurei que te amava antes de partir
mas já sabia que amava antes mesmo de jurar
então planejei que partiria sem amor porque levá-lo comigo, entenda
pesaria na viagem
amei porque partiria depois da jura
jurei que te partiria antes de amar
lancei minha flecha ao alvo errado - era um espelho, esqueci de mim
parti, segui andando
não sei se sinto dores
sei de súbito o que em um dia senti de susto
choque
depois de toda queda tem um choque
colisão, a queda própria se concretiza no corpo caído
não na possibilidade que cai, ou que cairia (tudo que pende cairá um dia)
o corpo caído se quebra se quiser quebrar
só se parte aquilo que sentir partir
senti, parti
parti porque jurei que te amaria
e não pude com o peso que proclamei
procurei
perdi
encontrei: na fissura da flecha no espelho, superfície
há a alma
abrir mão não é pecado
não se voa de asas fechadas
de fato, não me tornei a poetisa que queria
surgi aprendiz
maestrina de mim mesma
não canto com a voz
não sou feita do que se pode contar...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Acalentos

Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

(Adélia Prado)


Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...

(Florbela Espanca)


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José ?

e agora, você ?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José ?

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José ?

E agora, José ?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora ?

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José !

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José !

José, pra onde ?

(Carlos Drummond de Andrade)


Desatino

vermelho sangue
vermelho vivo
vermelho vida
vozes por velocidade
voracidade e volúpia
desarranjo em laços
entraçados de mel e cor
desacordo, desordem, caos!

tenho ânsia porque minha necessidade grita!
anseio sem saber esperar
angustio e amarguro - não!
prefiro, permito
cerro os olhos e os punhos

brisa leve
suave azul
sinto teu sussurro vir me contar em segredo:

quanto do meu suor tua loucura vai me custar?
conduzindo na força dos cascos
convencendo na força do ferrão
onde fica tua saída?
quanto pesa teu desejo?
que som faz teu coração
quando o breu te conquista a consciência
quanto tempo dura teu desatino
e em quantos suspiros eu vou te chamar de desamor?

quando a essência transpirar
e a alma gotejar de calor
pinta tua boca de amor
e vem morar em mim!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Não mente.
Mentir pra quê?
Você nem sabe mentir.
Você só distorce.
Falseia.
Você não é neutro, você tem cor!
Tudo em você é político,
opinião, expressão, objetivo, vontade.
Pra quê tanto fogo sem fumaça?
Não faço questão de ser um fetiche seu.
Loucura, delírio, fantasia...
Não é insanidade sua me pedir pra desprezar o que eu quase amei?
Quer-se querer mais que o que se quer... entende?
O gozo está em desejar, não no desejado.
Canaliza-se.
Projeções, transferências, pesos e contra-pesos.
Meia-luz.
Lusco-fusco.
Não consegui enxergar...
Água suja: foi nisso que nos tornamos!
Uma cascata de detritos um do outro,
tanto suor e tanto tempo...
Prefiro a dormência, então.
Vazio.
Mais tempo e eu apago você.

x

Eternamente.
Eterna mente.
Éter na mente.
Clorofórmio
Cianureto
Anestésico
Adormecer
Entorpecida
Mente Eterna.
Eternamente...

sábado, 5 de março de 2011

Página

Esqueci que nunca gostei de grama, deitei, adormeci, acordei confusa. Trocar os pés não fazia parte dos meus planos, meus passos é que são enviesados mesmo, nasci com pezinhos tortos pra dentro. Vou caminhando e tropeçando, algumas vezes bem devagar, outras nem sempre. Nunca soube correr. Você essa loucura. Eu sóbria. Recebi alguns bons conselhos seus, você que é mais casca que polpa. Essa precisão de trocar de exoesqueleto é o quê, medo de si? Penso que minha crueldade descobriria facilmente uma forma de te atingir em cheio. Você é feito de camadas finas, fácil de ser destruído. Como as baratas. Qualquer pranto te desmancharia, brinquedo de papel machê - daí a sua necessidade de ser escorregadio. Eu não. Onde você tem medo eu tenho coragem. As lentes dos meus óculos ofuscando o que você nem esperava encontrar, e agora? Um baú envelhecido, escurecido pelo tempo debaixo d'água. A única instância capaz de arrebentar meu cadeado era a sua braveza, felino! Ferino, astuto, arrogante! O que há na caixa de Pandora? Essa dificuldade de respirar deve ser mais que fadiga... tomei chuva enquanto estava desmaiada. Sozinha. Sozinha? Era você ali, sorrateiro feito as cobras que deslizavam seus balés por entre as folhas mortas no chão dos Outonos, leve como o vento que farfalhava os gravetos secos e me arrepiava a nuca... eu não podia ter te amado menos. Eu jamais teria querido te querer menos do que o que planejei. Você não vinga porque é quase molhado, não é possível tocar sua superfície. Você troca de pele antes que alguém consiga encostar. Hipnotizante, radiante, radioativo! Eu era presa fácil (mas quem te envenou fui eu). Quem tinha o corpo aberto era você, não eu. Renovar-se sobre o nada não é evolução. Você não sabe voar nem tem alicércie. Onde você pensa em pousar, no que tem fim? E depois? Minha energia te ceifou segundos de consciência. Nosso cerimonial entorpecente teria passado despercebido pela minha racionalidade. Atravessamos os portais da temporada de aquário, um embreagado no outro, e então a estação passou. Boa noite! Ainda chove sobre o mar. Outros tempos hão de vir e ir... Mas o ano já beirava maio e eu não podia te amar menos porque o mundo estava grávido da temporada das flores. Algumas vezes mais o sol se deitaria sobre o mar e em qualquer alvorecer cantariam as pétalas de cor em cheiro, maqueando Gaia. Sempre preferimos o Outono. Aquela melancolia alaranjada... folhas secas, galhos, Vincent Van Gogh, açúcar mascavo e canela, um relógio de pêndulo e botões de cravo. É mais elegante o Outono do que a Primavera, eternamente adolescente... houve um suspiro e estava derramado todo o mel. Você é todo sussurro. Abril é azul, meu bem. Só não mais azul que o céu de setembro. As águas de Peixes são tão geladas que cortam as veias... as lâminas dos virginianos são formadas pelo brilho dos olhos deles, material mais rígido do mundo. Inacessíveis. Eu até queria ter me surpreendido menos, mas minha vaidade sorria pra mim: Afrodite! Meu lombo já sofreu bem mais, por isso sou mais vermelha (manchada de sangue). Mas você, você não, você recusa tudo que aceita, sai dos trilhos por qualquer fantasia, reage a qualquer estímulo, pensa que acredita enquanto reluta, você é verde. Por isso nos confundimos: daltonismo astral. Éramos vertentes semelhantes, nos entrecruzamos - mas você insiste em explorar o mundo pelos ares e eu tenho mania de edificação. Só pode ser intenso se for real e realidade pressupõe terrenismo! (Essa parte não é taurinice, é quase lógica...) Compreendo sua imaturidade. Parece com a minha. Eu também já achei que me entregar ao delírio me libertaria. Precisei cavar minha própria lama pra entender que estava nadando contra a correnteza, que meus braços não queriam aquele caminho, que quanto mais forte eu me tornava mais sufocava porque tudo que eu escolhi pra me engrandecer escorria quente pelo meu rosto e deixava de existir. Vibrar por alguns segundos não constrói nada. É em vão. Enlouquecer docemente é aprisionamento e não êxtase. O êxtase está em ver todo dia o sol nascer... na verdadeira singeleza do tempo se propagando pelo espaço, da materialidade que se vive tão intensamente que nem sente. Enaltecer o detalhe é obcessão, mania. Pra quê escolher o micro se nós dois nascemos na mesma galáxia em que nasceram os aneis de Saturno? Perfeccionismo é capricornianice, vá-de retro! Tantos holofotes gastam uma energia desnecessária. Você não é alto. Nem grande, ou profundo. Você é uma planície. Vasto. Essa simplicidade nunca me enganou... tropecei por estar com um pé atrás. Seus truques não funcionam comigo. Suas cartas na manga eu já sei decoradas. Quem sabe fingir bem dispensa as estórias de pescador... já é março de novo! O fogo de Hades lambendo a elipse do universo. Bocejo. Tenho preguiça de superficialidade. Você que é mato, tem raiz fina, tem mais é que esparramar suas raminhas sobre outros botões. Eu não entendi você. Não te aprendi. Me deu preguiça. Involuntariamente eu desisti. Sua pirofagia deve ser alguma forma de sobrevivência, já que auto-proteção não combina com o seu gosto pelo risco. Você é um mastro sem leme. Te deixo agora. O frio da madrugada não me faz medo - faz companhia. Eu não sou flor nem fruto: sou o tronco, parto da raiz e termino onde toca o céu.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Nove

me disseram que já houve cântico mais profundo vindo de mim.
deve ter havido. já fui outras. sou várias.
o formato dos olhos é o mesmo: a cor mudou.
costumavam ser mais esverdeados, ultimamente andam assim cor de amargo

mas é que quando eu tinha meus nove anos eu era poeta.
já se foi uma década no meu carteado
minhas mãos pingaram tanta letra
tanto amor
tanta estória
tanto canto
tanto conto
que já não são mais as mesmas
e nem sou eu
tampouco sei se ainda sou poeta...

provavelmente minha poesia mudou de cor, mudou o tom, mudou a forma.
eu mesma mudei inteira,
vou continuar modificando
metamorfose
metade eu, metade o outro
eles serão, eu sereia!

não quero definições, dispenso finalmentes
me canso rápido de para sempres,
meu eternamente é nunca mais
sempre pra mim é pouco
não há estável que seja tão fascinante quando as ondas que quebram na praia e se formam de novo...

novo de novo,
nove de novo
gosto do meu solo firme, mas sei que o mundo é maior que eu
quero ser grande pra caber nele

não perdi minha poesia porque ainda posso senti-la lilás, lírio e lavanda
pulsando alguma essência que se eu quisesse decodificar poderia
mas não quero.
dispenso definições.
quebro muros, contorno valas, gosto do calor do sol mas acho linda a música da chuva
quando quebro na praia me formo de novo:
metade eu, metade o outro...